tinha já o costume de selar o fim de outubro com um beijo dela. não que se amassem. não que fosem namorados. ...não que fossem obrigados. mas havia, sabe-se lá por qual motivo, uma conjunção de fatores aleatórios que unia aqueles lábios no último dia do mês dez.
agora, pela primeira vez (desde que podia se lembrar), não cumpria o ritual quase necessário para que o novembro tivesse permissão de começar.
acordou com as horas do décimo primeiro mês correndo lá fora, sem sentir na sua boca os resquícios da boca dela, adoçando os dias que teria pela frente. por esse motivo, e porque já contava mesmo com o sabor paliativo daquela saliva, novembro não veio como ele esperava.
novembro veio seco, veio meio-amargo- difícil de transpassar a garganta.
veio como um pigarro doente e sanguinolento. e arranhou fino para depois ficar doendo uma daquelas dorzinhas irritadiças. ele evitou buscar o alívio do chuveiro ou a cura salgada do mar, prevendo, sabendo decorado o ardor do arranhão.
embora tudo dissesse o contrário, o calendário gritava: era novembro. (pegou a si mesmo lembrando nervoso sua caçada pelas palavras mais bonitas, somente para contar à menina sobre a ressaca dos olhos de Capitu). novembro: então quer dizer que esse era o seu gosto verdadeiro? novembro... uma ligação surreal entre os dois, feita de silêncio e reticências madrugada adentro, a qual já não tinha mais certeza se existiu ou fora apenas invenção, dessas que brotam d'numa noite de insônia. novembro.
tudo estava. claro.
e então, pouco importava que não viessem doces as horas do penúltimo mês. ela havia lhe dado o que realmente precisava. aquela coisa desejada, esperada louca e ansiosamente: apesar de tudo, estava ali, embrigado de inspiração.
e então, era como se fosse o primeiro fim outubro: quando acordou com um soneto pronto e perfeito no verso das pálpebras. ou o segundo - aquele em que foram fortes - em que não dormiu, com um poema revirando-lhe o estômago e o juízo. ou o terceiro - aquele, quando as roupas rapidamente lhes abandonaram no banheiro frio frio, na companhia sacana de pensamentos que pulsavam proibidos em todos os orgãos dos seus corpos - e as palavras escorreram nuas pelas pontas dos seus dedos.
e então veio, não tão tardio assim. desligou o telefone, acabando de vez com aquela ligação surreal. agarrou a caneta e um bloco de anotações que jazia sobre a cômoda do hotel. e escreveu.
3 comentários:
eu tinha te perdido, valeu pelo link!
continua linda escrevendo.
Me ensina como escrever, como amar e como conseguir achar isso brega?
E lindo, visse?
poxa, e eu que não sei fazer sonetos.
penúltimo parágrafo é particularmente lindo.
aiai, flor de maracujá.
bjo!
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