aí você vem com seu perfume.
o seu perfume viciante. o seu perfume que trás lembranças imediatas de um passado pouco distante.
é mentira. há tanto tempo você não vem. mas o seu perfume não desiste. vem mesmo desacompanhado. solitário como eu.
e depois surge nas mais improváveis pessoas. adentra minha sala de estar, se espalha
no escritório onde eu trabalho, sobrevive no coletivo lotado que eu pego pra voltar pra casa.
eu venho em pé, com medo de sentir teu cheiro e desmaiar. um lugar vaga.
eu sento na janela e esqueço o medo de ser decapitada: boto a cabeça pra fora, aliviada com
o ar de poluição lambendo minha cara.
uma vez eu li os cientistas dizendo que é assim mesmo, o cheiro suscita memórias de forma automática.
isso é uma coisa muito boa quando, de repente, por exemplo, vem um cheiro de romã ou laranja-cravo e temos reavivadas saudosas cenas da infância.
e é uma coisa muito triste e um tanto ingrata quando se levou tempo pra esquecer alguém.
não que eu não lembre nunca que você existe. lembro, mas é uma lembrança incolor e insípida.
um curta-metragem que passou. passou.
infelizmente, o odor não me deixa completar a tríade.
e eu vou te usando assim. me sentindo forte, triunfante. me inspirando descaramente em você.
deixa eu dizer. o universo, esse cabra filho da puta, algumas vezes se atrasa.
mas é lindo, é tão lindo quando ele conspira: um dia desses me contaram que o teu perfume saiu de linha.
0 comentários:
Postar um comentário